UM ESTUDO SOBRE O LIVRO:
BAKHTIN, Dialogismo e Construção de Sentido.
“De cada lugar procede uma única visão existencial; mas, na existência, os indivíduos nunca estão sozinhos.” Irene Machado
Síntese do Texto Os Gêneros e o Corpo do Acabamento Estético, da Professora Irene A. Machado, localizado na Parte III intitulada Bakhtin, Gêneros do Discurso e Dialogismo.(p.141)
Dedicamo-nos a leitura de “Bakhtin, Dialogismo e Construção do Sentido” procurando relacionar os artigos nele publicados ao nosso objeto de pesquisa e inquietação científica. Encontrar, portanto, elementos teóricos defendidos pelo lingüista que respaldassem nossa perspectiva de dialogismo, intertextualidade e semiótica impregnados na obra “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes, foi, sem dúvida nossa intenção maior.
Desta feita, chamou-nos atenção o artigo científico da Professora Irene Machado (Os gêneros e o corpo do acabamento estético) que relaciona pontos importantes para nossa pesquisa, como por exemplo, O olhar extraposto (1997, p.141)
Observar as manifestações culturais, observar o mundo das perspectivas artísticas de maneira ampla, com olhar extraposto; possibilita a percepção real de como múltiplos signos se manifestam em conjunto harmonioso com o todo. Para Bakhtin, lembra a Professora, “signo é tudo aquilo que significa” (1997 p.141). Entretanto, “nenhuma significação surge do nada, e sim, do processo das complexas relações de um signo com outro” (1997 p.141). Assim se constrói a significação completa, da perfeita sintonia entre a poesia, a música e o texto de “Orfeu da Conceição”. Uma significação montada na “múltipla focalização” (1997, p.141) destas relações estéticas co-irmãs. Como se Vinícius tivesse extrapolado no desejo de trabalhar em uníssono com os elementos artísticos da obra, conhecendo o poder e as possibilidades de cada um em se auto-relacionar.
O conceito de “olhar extraposto” defendido por Bakhtin e citado no início do artigo por Machado define sim, uma das possibilidades enxergadas (signo, linguagem e idéia) por Vinícius de Mores para “Orfeu da Conceição”. “Sem olhar extraposto - defende a teórica - é impossível falar em dialogia” (1997, p.142)
Em seguida, Machado apresenta as noções de texto segundo Bakhtin e suas relações com gêneros. O conceito de gênero, de acordo a abordagem dialógica de Bakhtin, “é instância de criação e acabamento do objeto estético” (1997 p.143). Por isso, acabamento e criação são temas fundamentais da estética geral através dos quais Bakhtin formulou o dialogismo. “O gênero organiza a manifestação e promove seu acabamento” (1997 p.143). Neste trecho da citação percebemos o qual funcional é a utilização de gêneros distintos na obra por nós pesquisada. Em “Orfeu da Conceição” o uso de sonetos, que retomam o modelo de escrita clássica em consonância com elementos populares, contemporâneos, parece promover o acabamento estético que defende Bakhtin no momento de seu uso. As relações melódicas do gênero musical costuram as relações marginais do texto teatral e, desta maneira, o acabamento estético vai se desenhando na relação estreita entre os gêneros presentes na obra.
Prosseguindo, a teórica apresenta a noção de “Inacabamento” (1997, p.144) bakhtiniana. Definição lingüística para o fenômeno das múltiplas interpretações dos escritos ditos (exatamente por essas múltiplas possibilidades interpretativas) inacabados. Para isso, argumenta Machado, “é preciso se introduzir num dos exercícios preliminares do dialogismo, que é a compreensão. Para tentar entender um autor que parecia escrever, não para um leitor, mas para
si próprio” (1997, p.144). A frase final de um texto de Bakhtin é sempre um campo aberto para a reflexão.
No âmbito desta compreensão, Bakhtin defende que no estudo do homem se encontra signos em toda parte e de toda sorte a espera de construção de uma significação¹. Por isso o estudo do Inacabamento, para se tentar entender o homem, seus signos, suas visões e seus produtos de produção. “A própria definição de dialogismo como visão de mundo está longe de se limitar a uma única focalização” (1997 p.145). Esta afirmação amarra o Olhar Extraposto que citamos no início com a necessidade de se estudar o inacabado exposto por Machado. Neste momento destacamos trecho do artigo que nos direcionou com mais efervescência ao objeto de nossa pesquisa:
[...] o dialogismo pode ser focalizado como uma manifestação de oralidade, de onde Bakhtin derivou seu conceito de Polifonia. Assim, o que define a dialogia é menos a oposição imediata ao monologismo e sim o confronto das entoações e dos sistemas de valores que posicionam as mais variadas visões de mundo dentro de um campo de visão.”(Beth Briant, 1997, p.145)
Sem dúvida, uma passagem que se filia ao estudo semiótico que investigamos na obra de Vinícius de Mores. Esta alusão a Polifonia é de uma relevância ímpar na construção de nosso Projeto.
O estudo do “Inacabamento” (1997, p.144) segue com exemplos apresentados pela Professora, de textos de Bakhtin que sugerem outras possibilidades interpretativas. O tom provocativo destes textos é mencionado, bem como a polêmica interna que eles apresentam.
As noções de “Acabamento” (1997, p.150) vêm a seguir. A Professora destaca a preocupação em Bakhtin com a finalização do todo estético através das relações entre as partes. Ela explica que é na literatura (na prosa literária) que Bakhtin “encontra elementos para dar uma imagem precisa a suas formulações” (1997 p.151). E exemplifica as relações de acabamento entre autor e personagem:
Uma pessoa só vê aquilo que está fora dos limites da visão do outro. Assim, os pontos de vistas simultâneos se completam na formação do todo, o evento dialógico. A composição estética é determinada pela relação dialógica entre as visões complementares, não pela vivência em si, embora o referencial seja a vivência (1997, p.151)
É mais uma importante observação no texto de Irene Machado que fortalece nossas impressões sobre a convivência harmoniosa dos elementos estéticos que pretendemos pesquisar em “Orfeu da Conceição”. A Professora desenvolve então o sub-título “O gênero como forma de acabamento do corpo estético” (1997, p.153) e se detém, a partir daí, nas relações teóricas de Bakhtin especificamente com o romance. Romance como lugar das experimentações. Como alternativa de observação de alguns dos princípios bakhtinianos. Onde o autor encontra elementos para dar uma imagem precisa a suas formulações.
Foi na verdade, o primeiro artigo, dentre tantos que compõem o livro em estudo, que pudemos, sistematicamente, associar com nosso trabalho de pesquisa. Um trabalho minucioso, que tem em nós a paciência, o respeito e a paixão que devem ser atribuídos a todo caso de amor e compromisso com a pesquisa científica.
Glauco Cunha Cazé
¹ grifo nosso para uma máxima de Bakhtin